Esta noite eu sonhei com a casinha dos meus pais e acordei no meio da madrugada, sutilmente angustiado. Eis o sonho, transcrito primeiramente conforme o fiz, ainda na madrugada, e, em seguida, contado no presente, como se eu fosse a casa. 

“Os meus pais estão na minha antiga casa, onde morei até meus vinte anos. A casinha tem várias rachaduras nas estruturas, mas está firme. É na minha cidade natal, no interior do Ceará, longe tudo, lá no meio do mato. A minha mãe está vendo as fotos antigas da nossa família e se emociona e meu pai, ao seu lado, não sabendo o que dizer (como sempre), silencia. Eles se abraçam e o cômodo onde eles estão de repente começa a cair. Eles correm para outra parte da casa, tentando achar um lugar seguro. Todas as portas e as janelas estão abertas, mas eles ficam dentro de casa. Noutro instante, toda a cena muda e eles agora estão em outra casa. Estão estranhando as paredes (como se estivessem se perguntando o que era aquilo e se de fato era a casa deles mesmo). É uma casa bem melhor do que a nossa antiga. Meu pai fala para a minha mãe “Essa não é a minha casa, eu não fiz ela assim”. Minha mãe caminha um pouco, como esse explorando o novo lugar e acha algum lugar para sentar."


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"Eu sou uma casa, meus pais me construíram com muita dificuldade e pouco material. Tenho inúmeras rachaduras na minha estrutura, mas sigo em pé. Eu estou longe da cidade, longe de tudo, lá no meio do mato. Algo me diz que esse é o meu lugar. Não sou tão bonito e algumas coisas faltam no interior de mim mesmo (nunca tive um sofá)... Agora, meus pais estão dentro de mim, sendo quem sempre foram. Minha mãe está vendo fotos antigas da nossa família e chora, meu pai silencia. Estão ambos abraçados, - dentro de mim - e um cômodo meu quebra e se desfaz no chão. Eles tiveram de mudar de um cômodo para outro e eu estou tentando com todas as minhas forças mantê-los seguros em algum lugar dentro de mim. Com amor, eu os guardo e os protejo... agora todas as minhas portas e janelas estão abertas, mas eles não vão embora... Agora, de repente, eu já sou outra casa completamente diferente e meus pais estranham as minhas paredes novas, procurando as rachaduras. Estranham o fato de estarem morando em algo melhor. Meu pai diz: "Você não é a minha casa, eu não fiz você assim". Minha mãe caminha um pouco sobre os meus novos cômodos e acha algum lugar para sentar... Agora, dentro de mim, estão nós três: a minha mãe, o meu pai e eu.”