O título deste tópico diz muito da minha experiência negativa ao presenciar pessoas falando da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) com um distanciamento enorme daquilo que Rogers propunha na construção experiencial da sua teoria. Também parte de algumas vivências pelas quais passei e tive imensa dificuldade em escutar as pessoas e me manter em contato com elas frente a uma postura forçada de acolhimento e uma ideia meramente discursiva de empatia. Ao mesmo tempo, diz também da minha experiência positiva de crescimento pessoal dentro da abordagem e do quanto desejo que ela seja reconhecida pelo que ela é, dentro do que de fato propõe e, sobretudo, que sua qualidade enriquecedora de ser preponderantemente vivencial não seja deturpada nem se perca no meio de nenhum discurso racionalístico ou por qualquer outra necessidade interior.
                    Este texto é parte do meu trabalho de conclusão de curso. Fiz apenas algumas adaptações para deixá-lo mais acessível, no entanto ele ainda é muito academicista na linguagem utilizada e menos pessoal do que eu gostaria. De qualquer forma, traduz um pouco do cuidado que venho construindo ao falar da ACP e atualiza o meu profundo desejo de que as pessoas entendam o que é esta abordagem, onde ela está situada no campo da Psicologia e quais são seus fundamentos teóricos tidos como primordiais.
O meu principal objetivo ao tentar responder “o que é e o que não é uma Abordagem Centrada na Pessoa” é evidenciar a existência de uma psicologia supostamente humanista que tem se movimentado nos últimos tempos em sentido contrário à centralidade da pessoa. Afirmar que existe essa psicologia é, por si só, quase que um ato político. Para além disso, tenho a pretensão de compreender como esta postura vem se tornando cada vez mais comum, quer seja em virtude de uma maior facilidade de acesso ao “admirável lugar do psicoterapeuta”, quer seja por uma dificuldade da sociedade contemporânea de enxergar os próprios sentimentos, assumi-los e se permitir vivê-los para que, assim, se possa haver um encontro diante do outro onde estejamos verdadeiramente inteiros. Inteiros, “não uma fachada de conformidade aos outros, não uma negação cínica de todos os sentimentos, nem uma frente de racionalidade intelectual, mas um processo vivo, que respira, sente e oscila” (Rogers, 1997, p. 129/130).
            Quando falamos de ACP, estamos dizendo de uma maneira muito singular de nos relacionarmos com o mundo e com os outros, um modo que vai totalmente de encontro ao que estrutural e socialmente temos construído atualmente. No contexto clínico, que é sob o qual tecerei algumas considerações neste trabalho, a ACP vai na contramão do que propõem os modelos psicoterápicos hegemonicamente estabelecidos hoje em dia pelo conhecimento científico. Em termos de ciência, estamos dizendo de “uma ciência genuinamente humana sobre o homem”, como o afirmava Gendlin (1970). Em termos de experiência, penso que faça mais sentido dizer que esta abordagem nada mais é senão um jeito de viver a própria vida, uma maneira muito peculiar, verdadeira e presente de existir. Não qualquer jeito: um certo jeito de viver a própria vida.
            A ACP é antes de qualquer coisa uma abordagem humanista. Dito isso, compreende-se que ela então é uma abordagem interessada na dignidade e, sobretudo, na potencialidade da experiência humana. É existencialista, ou seja, acredita que, lançada no mundo, esta experiência humana só pode ser significada dentro da vivência concreta e singular de cada sujeito que vi criando-se continuamente frente à absurdidade de existir. É fenomenológica, uma vez em que está profundamente interessada nos fenômenos conforme eles surgem, suspendendo qualquer julgamento sobre eles e tentando “retornar às coisas mesmas”, ou, dito de outra forma, tentando voltar-se ao que de fato se é e não ao que se diz (ou se mostra) ser. Estas três características situam a abordagem dentro de um determinado campo filosófico a partir do qual torna-se possível pensar um ser humano livre, responsável por si mesmo e com uma tendência natural ao crescimento pessoal.
Dentro do contexto da relação terapêutica a ACP propõe uma atmosfera facilitadora. Ou seja, não são somente as palavras emitidas pelo psicoterapeuta que serão recebidas e significadas pelo cliente, mas o todo: o tom dessas palavras, o cuidado emitido nelas, a calorosidade da fala, sua intencionalidade, o silêncio e todas as atitudes que serão sentidas pela pessoa no aqui-agora do encontro. Qualquer encontro no qual seja necessário falar para a outra pessoa (e não comunicar-lhe vivencialmente) que se acredita nela e no seu potencial, não é ACP.  É somente à medida em que o sujeito vive dentro dessa atmosfera um sentimento de confiança e que de fato haja ali algo que lhe faça se sentir afirmado, seguro e livre para falar, viver e sentir tudo quanto possa estar dentro da sua experiência, é somente quando a pessoa experiencia as emoções dessa maneira, integral e abertamente, que ela vivencia a si mesma e pode então tornar-se aquilo que de fato é (Rogers, 1997).
De igual maneira, ouvir o cliente, não é apenas escutar suas palavras, mas também os sentimentos contidos dentro delas. A confusão, o medo, a insegurança ou o que mais estiver dentro da experiência daquela pessoa no instante em que ela rompe o silêncio (o realizando) com sua fala. O que significa que é preciso, por parte do psicoterapeuta, um deslocamento do modo como nos relacionamos normalmente para um outro lugar; o de acolhimento. No livro Um Jeito de Ser Rogers descreve um pouco sua experiência pessoal a partir desse lugar, onde o referencial é o vivido da outra pessoa:
Quando digo que gosto de ouvir alguém estou me referindo evidentemente a uma escuta profunda. Quero dizer que ouço as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal, até mesmo o significado que subjaz às intenções conscientes do interlocutor. Em algumas ocasiões, ouço, por trás de uma mensagem que superficialmente parece pouco importante, um grito humano profundo, desconhecido e enterrado muito abaixo da superfície da pessoa. Assim, aprendi a me perguntar: sou capaz de ouvir os sons e de captar a forma do mundo interno desta outra pessoa? Sou capaz de pensar tão profundamente sobre o que me está sendo dito, a ponto de entender os significados que ela teme - e ao mesmo tempo gostaria de me comunicar -, tanto quanto ela os conhece? (Rogers, 1987)
É através dessa atmosfera que passa a ser possível à pessoa em processo de psicoterapia fazer contato com as questões que circundam sua própria existência. A partir do momento em que alguém partilha suas experiências com alguém que as enxerga e aceita, então essa pessoa vai tornando cada vez mais possível arranjar-se criativamente com isso. Na ACP, cabe ao indivíduo – e somente a ele - a capacidade e o poder de distinguir, sem ser guiado, os passos que o conduzirão a um relacionamento mais maduro e mais confortável com ele próprio e com a realidade (Rogers, 2008, p. 33).
Para que isto seja possível, numa perspectiva onde o cliente seja de fato o referencial, é preciso que o psicoterapeuta seja “capaz de sentir o outro como digno de respeito, de reconhecer em si ausência de julgamento pessoal” (Barcellar, 2017) e, principalmente, é preciso realmente acreditar na potencialidade interna que cada um de nós tem para crescer e se movimentar na vida de forma positiva. Rogers chamava isto de Tendência Atualizante e esta é uma concepção basal e fundamentalmente importante para que a ACP possa ser discutida (Hall et al., 2000; Moreira, 2007).
Em outras palavras, a Tendência Atualizante é a medula da Abordagem Centrada na Pessoa e acreditar nela, ou seja, acreditar que "todo organismo é movido por uma tendência inerente para desenvolver todas as suas potencialidades e para desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e seu enriquecimento" (Rogers & Kinget, 1965/1979) é a base que estrutura e fundamenta uma relação genuína com o outro. Por tanto um desafio enorme para a nossa geração (Wood, 1983) e, mais ainda, para o psicoterapeuta que, sem isso, tende ou a responsabilizar-se pelo processo de seu cliente ou, pior, a passar por cima dele.  
Lembro de uma vez em que estive num grupo de encontro onde uma pessoa, depois de muito tempo em silêncio começou a falar sobre sua imensa dificuldade de se autoarfirmar diante das pessoas e então alguém cortou sua fala para lhe dizer - verborragicamente – “que ali ela poderia gritar, se quisesse”. Depois disso essa pessoa não falou mais no grupo durante a tarde inteira. Lembro do meu sentimento de raiva por essa pessoa não ter sido escutada no que estava dizendo. Ela estava comunicando sua profunda fragilidade, seu medo e sua dor frente a um suposto outro que tantas vezes lhe negou a possibilidade de se colocar e se afirmar. Eu nunca vou esquecer do semblante de espantado com o qual ela comunicava isso. Suas mãos estavam suadas e a voz claramente ofegante. Ela havia rompido com seu maior medo e criado um espaço, por ela mesma, para se posicionar e falar sobre seus sentimentos. Quando uma outra pessoa lhe calou para lhe dizer que ela “poderia fazer isso” o meu coração começou disparar de raiva. Olhando agora de fora, anos depois disso ter ocorrido, percebo o quanto também fui negligente em não ter me voltado para ela e refletido seu sentimento. Não precisava ser nada elaborado, talvez se fosse hoje eu apenas lhe comunicasse que ela estava, naquele momento rompendo com muita coisa dentro dela para fazer aquilo, que sentia que ela estava partilhando algo grande e forte na sua vida. O que fiz, na época, me calar, com meu coração disparando de raiva, não foi ACP . O que faria hoje talvez pudesse ser algo mais próximo da centralidade daquela pessoa, algo que se aproximasse de sua experiência real e concreta, ali, diante de mim.
Pare agora por um instante e reflita: “eu realmente acredito que as pessoas, todas elas, tem um potencial enorme dentro de si para crescer e que só precisam de um ambiente facilitador para que isso possa acontecer? Ou, na maioria das vezes, eu escuto uma outra coisa em mim que me faz acreditar que é por meio do poder da minha intervenção enquanto psicoterapeuta que ela vai conseguir evoluir? Esse é um ponto nevrálgico na discussão que faço sobre a Abordagem Centrada na Pessoa: não é que nesta abordagem eu não intervenha e que isto não seja fundamental para a experiência do meu cliente. Mas que cada intervenção feita deve facilitar a caminhada e a ampliação experiencial da pessoa. Eu não aplico uma técnica porque há em mim (algo que não parei para escutar e) que me faz necessitar disso; eu me implico com a experiência do outro e, dentro disso, cabe então fazer qualquer que amplie a tomada de consciência da pessoa sobre si mesma, respeitando seu tempo, obviamente, seus limites e sua subjetividade.
Mas o que compõe, então, uma Abordagem Centrada na Pessoa? Carl Rogers escreveu um artigo muito emblemático em 1957 intitulado “The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change” (Condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica da personalidade) onde descreve seis (06) condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica de personalidade. Note que o título diz condições necessárias e suficientes o que implica dizer que qualquer coisa além disso passa a sobrar dentro de um processo de mudança. São elas:
 “(1) Que duas pessoas estejam em contato numa frequência estável, sem variações. Que o ritmo das sessões se mantenha constante para que a terapia seja um processo; (2) Que a primeira pessoa, o cliente, tenha dúvidas e conflitos quanto a ir às sessões; que sua presença nelas nunca seja algo tranquilo e rotineiro; (3) Que a segunda pessoa, o terapeuta, ao contrário, não tenham nenhuma dúvida ou conflito quanto a estar nas sessões; que a sua presença nelas seja sempre clara e inequívoca; (4) Que o terapeuta tenha em relação ao cliente aceitação positiva incondicional com relação às suas faltas e atrasos de maneira que estes possam ser integrados terapeuticamente à terapia; (5). Que o terapeuta tenha compreensão empática do quadro de referência interno do cliente com relação a seus conflitos; (6) Que o cliente perceba, maximamente, o rigor do terapeuta quanto à realização das sessões ou a condição 3.” (Rogers, 1957)
Muitos outros estudos foram feitos a partir deste artigo a fim de averiguar sua consistência empírica no campo da pesquisa em psicoterapia (Bozarth et al., 2000) e a hipótese de Rogers foi consistentemente sustentada (Truax and Mitchell, 1971; Patterson, 1984; Bozarth & Stubbs, 1994).
Em contrapartida, uma série de trabalhos de diversos autores deste campo se referem às condições postuladas por Rogers apenas como preparatórias para as posteriores intervenções do terapeuta (Lazarus, 1993; Norcross, 1992; Quinn, 1993) supondo-as, assim, como necessárias, porém insuficientes para um processo psicoterapêutico (Stubbs & Bozarth, 1994). No entanto, uma observação importante destes estudos foi levantada por Schaff (1992) que afirmou que o modelo operacional adotado nestas abordagens pressupõe que ao terapeuta caiba a responsabilidade de agir e intervir para a mudança do cliente, uma vez que ele sabe o que está acontecendo com ele e o que necessita ser feito em relação a isso.
O percurso feito pela Abordagem Centrada na Pessoa nos leva ao oposto desta crença comum à Psicologia de que o terapeuta detém um saber superior ou mais importante que o do paciente. Contrária a isso, a ACP propõe uma renúncia ao controle e ao direcionamento e, ao mesmo tempo, um mergulho nas experiências subjetivas cuja profundidade depende do quanto se confia ou não na sabedoria do organismo (Wood, 1983), uma vez que ele tem “uma verdadeira potência [...] que se realiza através de um processo de atualização individual e contínuo das suas potencialidades tanto físicas quanto psicológicas” (Bacellar, 2017).
Acredito que o artigo de Rogers pode ser sintetizado em três conceitos básicos que junto à Tendência Atualizante compõem a base da abordagem e servem de referência para definir se a relação estabelecida entre psicoterapeuta e cliente é, de fato, uma Abordagem Centrada na Pessoa. São eles: (1) Congruência; (2) Aceitação Incondicional e (3) Compreensão Empática. Estes conceitos foram profunda e empiricamente investigados por Rogers e, sobretudo, foram por ele vivenciados na sua extensa trajetória de pesquisador e terapeuta humanista. No decorrer do percurso constitutivo feito pela ACP, vale destacar, estes conceitos sofreram pequenas alterações de nomenclatura e foram se ampliando à medida em que a própria experiência de Rogers com a abordagem foi se movimentando e ganhando mais forma tanto com as pesquisas empíricas quanto com as vivências em psicoterapia individual e nos grupos de encontro (Rogers, 1987).  
Os três conceitos principais são:
Congruência (ou autenticidade) é “quando o que estou vivenciando num determinado momento está presente em minha consciência e quando o que está presente em minha consciência está presente em minha comunicação, então cada um desses três níveis está emparelhado ou é congruente. Nesses momentos, estou integrado ou inteiro, estou inteiramente íntegro” (Rogers, 1987). Neste sentido, na congruência há algo de um atravessamento nos níveis do sentimento, pensamento e comunicação/ação. O sujeito experimenta o que sente, está consciente disso e pode comunicá-lo ao outro e agir a partir disso no mundo. Um ponto importante a ser destacado sobre isso é que Congruência não é sinônimo de sinceridade. Eu posso ser extremamente sincero e mesmo assim estar inautêntico com a minha experiência.
Um exemplo muito comum que pode dar luz a este conceito é o de pessoas que passam suas vidas inteiras em relacionamentos heteroafetivos por não conseguirem afirmar/reconhecer a possibilidade de amar alguém ou sentir atração por pessoas do mesmo gênero. Muitas vezes essas pessoas não conseguem sequer reconhecer isso para si mesmas e então vivem um processo de incongruência consigo próprias tão violento que lhes adoece. Às vezes tomam consciência disso, mas não se permitem pensar a respeito e quando pensam, não aceitam esses pensamentos. Não aceitando, passam agir não conforme o que seu organismo comunica, mas a partir do que pressupõe ser o esperado delas, ou seja, escondem quem verdadeiramente são, se omitem de ser. Este é um caminho muito difícil porque é profundamente angustiante e doloroso não gostarmos de nós próprios e termos de viver uma vida que não é a nossa, no entanto isso ainda é muito comum no mundo em que vivemos.
A Aceitação Incondicional (ou consideração positiva) pode ser entendida como o movimento de, ao ser afetado pelas experiências do outro, senti-la como dignas de consideração positiva, isto é, “entre todas estas experiências nenhuma existe que eu distinga como mais ou menos digna de consideração” (Rogers, 1977, p. 175). Aceitar incondicionalmente alguém significa se abrir - em sua experiência - para aquela pessoa toda, sem querer moldá-la, aceitando em si que ela siga seu próprio fluxo, dentro do seu próprio ritmo e tempo, acolhendo o seu ir e vir quer seja na confusão, no medo ou no reconhecimento ou enfrentamento das adversidades.
Um cliente, por exemplo, que fala há um ano sobre o mesmo tema precisa ser reconhecido e ter seus sentimentos em relação a isso reafirmados tanto quanto um outro cliente que parece caminhar muito rápido no seu processo psicoterapêutico. Esta é uma capacidade muito importante para ser desenvolvida dentro de uma perspectiva centrada na pessoa e requer também do psicoterapeuta que ele se reavalie constantemente, se atualize e se conscientize de sua prática clínica para que cada vez mais, aceitando-se, possa aceitar também o outro em tudo quanto possa estar vivenciando na sua caminhada existencial.
A Compreensão Empática, por fim, é a atitude de “assumir, tanto quanto for possível, a estrutura interna do cliente, perceber o mundo como o cliente vê, deixar de lado todas as percepções a partir da estrutura de referência externa” (Rogers, 1992, p. 38) e mergulhar no mundo do cliente. Trata-se de caminhar junto com a pessoa a partir de sua própria percepção de mundo e este, sem dúvidas, é um grande desafio ao terapeuta, sobretudo porque estamos socialmente mais próximos de um modelo de relacionamentos onde há vivencialmente uma grande distância desta experiência existencial de contato com o mundo do outro (Stevens, 1978).
            Ser genuinamente empático com o outro é um dos maiores desafios do psicoterapeuta rogeriano. Sair da nossa estrutura para se aproximar o máximo possível do referencial de alguém (sem se misturar) é um movimento muito custoso, às vezes. Costumo dizer que este é o conceito mais simples de ser entendido teoricamente e o mais complexo de ser estendido e integrado à nossa prática. A empatia enquanto atitude é um lugar muito difícil de acessarmos sobretudo para nós que compomos essa contemporaneidade ensimesmada. É preciso nos ouvirmos muito na nossa singularidade para podermos compreender a singularidade do outro e isto não só pode, mas precisa levar um certo tempo. Compreender o outro sem identificar-se com sua fala, sem implicar a pessoa e suas vivências nos seus próprios sentimentos particulares é um dos maiores obstáculo que enfrentamos na caminhada por uma empatia genuína.
            Estes são os três conceitos que compõem o alicerce teórico da ACP e chamamos de Condições Facilitadoras. Eles dialogam entre si, mas cada um tem sua particularidade e, juntos, compõem a atmosfera do encontro centrado na pessoa bem como a postura dialógica nas respostas reflexivas direcionadas à pessoa. As respostas-reflexo (gosto mais de chamar respostas reflexivas) são o que muitas pessoas compreendem como “a técnica-base para a estruturação de sessão na ACP”. Em resumo, trata-se da atitude mais básica do terapeuta em refletir o sentimento presente em na comunicação inteira da pessoa. É, de fato, uma atitude genuína de apreço, curiosidade e interesse pelo que o outro está dizendo e requer que todos os conceitos supracitados estejam construindo esse movimento. Refletir o sentimento de alguém é ir para além da sua fala, é ouvir também o corpo dessa pessoa, suas expressões, seus gestos, seu tom, sua inteireza. Com o tempo o psicoterapeuta acepista vai naturalizando essa atitude, integrando-a a seu jeito de ser e, assim, vai podendo estar mais com o outro e entendendo que inclusive dentro do silêncio isso pode se manter acontecendo e descobre que é simplesmente sobre ir vivendo aquele encontro.
Embora pareça simples, incorporar tudo isso verdadeiramente como atitude (e não como discurso) é o que define se é ou se não é uma Abordagem Centrada na Pessoa. Há uma linha muito clara que delimita isso e só pode ser enxergada por quem está aberto para se enxergar também nesta caminhada. A ACP convida o sujeito a sair do lugar seguro da intelectualização e da análise para um outro lugar, onde a força que garante a sustentação de tudo é a potencialidade do encontro e a crença real de que o “indivíduo tem dentro de si amplos recursos para a autocompreensão, para alterar seu autoconceito, sua atitude básica e seu comportamento autodirigido” (Rogers, 1986, p. 16). Ele só precisa ser facilitado. Não empurrado, facilitado.
Por este motivo, falar de terapia nestes moldes é, ao mesmo tempo muito simples e muito complexo. Simples no sentido de que é apenas um deslize sobre a própria natureza humana, que se sensibiliza diante da vida, do mundo e do outro. Simples porque é sobre o que sentimos quando estamos em contato genuíno com nossa própria existência e com a existência de outra pessoa. Porém também é complexo porque pode soar tão simples que algumas pessoas, não entendendo a beleza e magnitude disso, podem facilmente entrar na ilusão racional de estarem fazendo isso por meio de discursos prontos e simplistas. O psicoterapeuta que abraça o cliente e que diz que aquela dor vai passar não está fazendo ACP. Nós devemos viver com o outro sua dor, compreender como ela significada e refletir isso para que então ela possa ser explorada, reconhecida e integralizada àquela existência. O processo de “cura” se dá no curioso paradoxo: é somente quando eu me aceito como sou que então eu mudo (Rogers, 1992).
A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) faz uma leitura muito potente do ser humano e aposta no poder do significado pleno que se prende à presença significante da pessoa em todo o seu movimento de expressão (Amatuzzi, 2001). Sobre este tipo escuta, novamente, Carl Rogers afirma:
“Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras, mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Há, em primeiro lugar, um olhar agradecido. Ela se sente aliviada. Quer falar mais sobre seu mundo. Sente-se impelida em direção a um novo sentido de liberdade. Torna-se mais aberta ao processo de mudança.” (Rogers, 1983, p. 06)
Em resumo, é sobre um certo modo de ouvir e um certo modo de ser ouvido. Não qualquer um: um certo. A Abordagem Centrada na Pessoa é um modo de estar com o outro muito sensível, muito presente, sem responsabilizar-se por ele, sem querer consertá-lo ou direcioná-lo, mas num estado de procura com ele que é anterior a tudo: é dentro da humanidade de cada um.

Referências
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Hall, C. et al. (2000). Teorias da personalidade. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.
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Patterson, C.H. (1984). Empathy, warmth and genuineness in psychotherapy: a review of reviews. Psychotherapy, 21, 431-438.
Quinn, R. (1993). Confronting Carl Rogers: a developmental-interactional approach to person-centered therapy. Journal of Humanistic Psychology, 33, 6-23
Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of consulting psychology, 21(2), 95.
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