sábado, 2 de dezembro de 2017

Psicologia da Cacimba




Meu pai sabe cavar cacimbas, sempre trabalhou com isso. Lembro que quando era criança eu o observava, da beirada, curioso e contemplativo. Tudo começa de um círculo desenhado ao chão com o dedo, feito normalmente mais ao fundo do quintal, longe de casa. Depois se torna um buraco pequeno e então ele vai dando as primeiras formas retirando o barro, acertando as margens com a chibanca e perfurando a história do chão até que ele se torne uma cratera, ganhando profundidade, escuridão e calor. 

Depois de observar um certo tempo notava que, para ver meu pai, precisava ir bem mais próximo da margem, dada a fundura que o buraco ia herdando em cada pancada. Ele já estava tão dentro que para retirar o barro, já a pá não servia, porque as paredes já estavam demasiadamente altas para a força de seus braços, então a gente punha uma corda num cesto (bem forte, feito de cipó) e o descia, vagarosamente. Quando meu pai o enchia, a gente puxava. Lembro que era muito interessante olhar a cor do barro que ia gradualmente se tornando mais escura e mais umedecida, depois, o próprio barro mais pedregoso, mais duro e firme. Era o sinal de que já estava perto de encontrarmo-nos com o famoso "olho d'água". Me recordo que irritava meu pai perguntando insistentemente, de meia em meia hora, inquieto e ansioso, sobre o final desse processo todo. Eu queria ver a água! Meu pai, com a calma que a experiência lhe tinha dado, respondia serenamente, às vezes rindo, "tenha calma, tudo tem seu tempo..."

Lembro que levava dias de serviço. As mãos de meu pai já todas endurecidas nem sofriam mais a dor da batida da chibanca na pedra, tantas tinham sido suas experiências. Algumas vezes, inclusive, dadas as condições geográficas do lugar, ele sentia falta de ar e tínhamos de retirá-lo às pressas, jogando a corda da engenhoca para baixo. Era um processo lento e difícil. Eu não compreendia como tudo aquilo acontecia! Areia, buraco, força, pai, barro, pedra... água!

Quando a cacimba já atravessava todas as camadas e horizontes do solo desde a superfície, aquilo já era tão fundo que sequer enxergávamos o final. Meu pai subia à margem e nos provava então cientificamente que havia água ali jogando uma pedra grande no fundo. Primeiramente, a demora. Depois, o barulho da queda da pedra na água: “puffff!” De fato! Eu ficava abismado e alegre. Meu velho sorria com um ar de “Está vendo? É água!”. Talvez não hajam palavras em mim ou comigo agora que expressem objetivamente aquela emoção. Era singular aquele sentimento misturado de fé, entusiasmo, esperança, espanto e alegria. 

Mais singular do que aquelas emoções foi o suto de ter me dado conta, já muitos anos depois - embora achando que muita coisa tivesse mudado-, que eu continuo sendo o mesmo observador de cacimbas que era na infância. Agora um pouco mais atento ao movimento das coisas, talvez um pouco mais paciente e, sem dúvidas, consciente de que mais do que assistir ao processo, eu agora faço parte dele, agindo.

Quando escolhi Psicologia, não tinha muita clareza do que de fato isto seria para mim ou quais as implicações disso na minha vida. Quando cheguei aqui, pensava sair um detentor de conhecimentos sobre a mente humana, que algo me capacitaria a entender o indivíduo em sua total complexidade e de poder dizê-lo de tal modo que sequer ele próprio poderia ser capaz. Eu o direcionaria e contribuiria para sua melhora, ou, para ser mais sincero com o que pensava na época, eu curaria as pessoas. Talvez aqueles fossem até os desejos da sociedade moderna refletidos em mim, ou ainda, talvez fosse a mim que eu desejasse entender e curar. No entanto hoje, depois de caminhar alguns passos, suponho estar mudando a direção.

Hoje, 30 de maio de 2016, depois de um semestre cansativo, me encontro dentro da Psicologia da Cacimba e me parece extremamente claro que sempre estive, de algum modo que não sei qual, nela. Hoje mais do que qualquer outro dia tenho a certeza - de mim para mim mesmo -, que o que realmente quero dentro dentro do que eu sou é simplesmente me fazer presente no processo de escavação humana, facilitando o encontro com a água. Permitindo sentir quão escuro o poço fica junto com quem está lá dentro, ajudando a retirar o barro, a pedra e iluminando um pouco quando não for possível enxergar muita coisa.

Revendo tudo isso, vejo que há caminhos bem diferentes e que começo a traçá-los agora: eu não serei um mecânico consertando uma peça porque eu não detenho saber algum sobre o outro que me possibilite consertá-lo. Cada vez mais enho acreditado que eu serei tão somente um humano diante do outro, em relação com as pessoas e com o mundo. E isto embora possa soar a muitos ouvidos como raso, como pouco, como insubstancial, é, na verdade, ao menos para mim, extremamente profundo como, o era a cacimba. Mais do que isso, é o lugar que, aos poucos, tenho tentado pertencer dentro da Psicologia. E que gratidão tem sido este percurso! 

Dentre as tantas coisas que tenho aprendido por aqui, pelo meu caminho, uma delas é que há a possibilidade de ir crescendo na medida em que vou ampliando a minha experiência a tal ponto em que tem sido possível sentir apenas a gratuidade dos encontros se movimentando em seu próprio fluxo. Para lá e para cá. Ter compreendido isso me emancipa e legitima um pedaço meu solto no espaço da vida que eu não conseguia enxergar há um tempo atrás. Agora eu posso muito mais ir e voltar e deixar as coisas irem e voltarem também nesse balanço. Acho que isso é encontrar-se. Acredito que isso esteja sendo aprender sobre a cacimba que cada um de nós tem para explorar. Talvez esta seja a nossa grande busca e eu me sinto, profundamente, mobilizado a isso!


30 de maio de 2016. Na última aula de Psicologia Fenomenológico-existencial.


Texto dedicado especialmente à professora Sandra, com quem pude escavar um pouco e compreender algumas coisas sobre profundidade e encontro.

Psicólogo Clínico. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba. Membro do Núcleo de Acolhimento e Escuta Psicológica (NAEPSI).

CONTATOS
MÁRIO SILVEIRA
(83) 9 9900-9332
Bancários, João Pessoa.